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Leozito Rocha

John Peel e Mark Sandman, o núcleo da alma musical

JOHN PEEL (1939 – 2004)

Se tem alguém que influenciou, ajudou, divulgou e/ou propagou os famosos “bons sons”, esse alguém atende pelo nome de John Robert Parker Ravenscroft ou John Peel como todos nós conhecemos. Famoso jornalista, radialista e DJ inglês que dirigiu um dos programas mais ouvidos e geniais na BBC de Londres. John foi uma das maiores referências musicais (como Alan Bangs também foi) e sinônimo de qualidade. Por suas mãos milhares (juro) de bandas passaram. Mas, essa história não começa assim de supetão. Não. Tudo começa pelas Forças Armadas quando o jovem Peel trabalhou em radares e operou esses pequenos instrumentos de ondas. O gosto por rádios e música já era latente e explícito no jovem. Desde cedo tinha desejo em apresentar programas e tocar canções que ele gostasse e pudesse apresentar ao público. Peel voou para os EUA para vários empregos (o primeiro no ramo do algodão – mercado de seu pai) até chegar ao rádio. Pulou de rádio em rádio até se fixar em uma na época da “Beatlemania” no Tio Sam. E, justamente por sua identificação com Liverpool (Peel nasceu perto da região e era torcedor fanático do clube de futebol). 

No ano de 1967, John retorna à Inglaterra para trabalhar em duas rádios. Uma delas apresenta o Big L., programa do “The Perfume Garden” (aonde por uma sugestão de uma amiga da rádio adota o sobrenome “Peel”). Pega o turno da noite/madrugada e implementa seu jeito distinto em se comunicar. Ele era confessional, sedutor e excêntrico. Não demorou muito e se tornou o mais ouvido e querido pelos ouvintes. Toneladas de cartas chegavam na emissora. Além disso, Peel tinha uma dedicação enorme pelo “underground”. Tanto na Inglaterra como nos EUA. Dava sempre um jeito de tocar bandas fora do radar comercial fosse a origem que fosse. Envolvia-se também com apresentações e eventos de artistas novos e fora do “mainstream”. O que deu mais credibilidade e background ao radialista. Quando migrou para a BBC Radio 1, programa novo de música do grupo BBC passou a receber amigos e artistas famosos. John Lennon, Yoko Ono, pessoal dos The Byrds, poetas etc… Cabe aqui um parêntese: antigamente as rádios piratas captavam ondas de navios mesmo. Usavam esse expediente ilegal. John Peel pegou todo esse período de rádios piratas. 

Posso assegurar de que desde 67 Peel tocou centenas de bandas que chegaram aos ouvidos do público. De Led Zeppelin, AC/DC, Babe Ruth a Ramones. A Certain Ratio, Pulp, Nirvana, Underworld e Chemical Brothers. Passando por The Jam, Talking Heads, Suicide, OMD, Gary Numan, Blondie, Pop Group, Joy Division, New Order, PIL, Smiths, JMAC, Siousxie, Pixies, REM, Sonic Youth, Be Bop Deluxe, Fall, Ride, James, Curve, Loop, etc. Pra ficar nas mais famosas. Citar aqui grande parte demandaria laudas e paciência do leitor. Acredite. O que vocês pensarem nos anos 70, 80 e 90 de underground passou por ali. 

John Peel nunca tinha o agrado da alta cúpula da BBC, pois essa postura de não celebridade e “anti-establishment” dele incomodava. Peel gostava do não convencional, do marginal (no sentido de estar à margem da sociedade e do senso comum), do incomum. Sonoridades eram filtradas assim também por seus ouvidos. Ele foi um do primeiros que vibrou com o álbum de estreia dos Ramones, por exemplo. Brigou na BBC por eles. E, podemos afirmar que venceu essa queda de braço. Desde 1967 até 2004 (ano de seu falecimento) foi o único locutor que durou tamanho tempo na emissora. E, em suas sessões (famosas Peel Sessions) de gravações e apresentações milhares (sim… Não é exagero não) de bandas estiveram. Sobretudo artistas novos. Entre o dub, pop, rock, punk, pós-punk, new wave, synthpop, eletrônico, nada escapou do radar de John. A ironia disso tudo é que ele mesmo, John, tornou-se uma celebridade. Já era tão solicitado quanto as bandas. E, no fim da vida, foi vencido pela vaidade e aceitou autorizar uma biografia sua. Quem se interessar chama-se John Peel: A Life in Music” de Michael Heatley e Michael O’Mara Books.

Em tempo: em seu funeral (25 de outubro de 2004) foi executada a canção “Teenage Kicks” dos Undertones. Pedido antecipado de John Peel. Uma das faixas prediletas ele. 

MARK SANDMAN (MORPHINE)

Para vocês verem como são as coisas… Bastou eu sentar frente ao laptop e escrever (mais uma vez) sobre a banda e o cantor que pingaram pessoas falando sobre o mesmo assunto comigo. A tal sincronicidade (que eu acredito piamente) da vida. Eu já produzi programas sobre a banda e alguns textos abordando a vida (passageira) de Mark. Eu sempre curti demais ambos. E, um dos meus maiores dissabores dessa vida em termos culturais é nunca tê-los visto ao vivo. Uma pena mesmo! Aliás, o Morphine caberia como uma luva num festival como o antigo Free Jazz ou até o Tim Festival, não? Seria perfeito. A banda causa em mim aquele sentimento jazzístico de estar num bar “noir” bebendo uma dose de whisky, luz baixa, diversos cigarros tragados, um crooner no palco e a melancolia da madrugada. Manjas? Pois é…

Uma das coisas bacanas que pude assistir foi o documentário Cure for Pain – The Mark Sandman Story” em 2011. Portanto, completou dez anos em 2021. Para quem gosta dele e da banda é imprescindível ver. Recomendo. 

O líder do Morphine merece um lugar de destaque na música. Ele foi um dos caras mais criativos que apareceu. Foi uma estrela local em Boston, tornou-se uma maior ainda no país. Foi um poeta, músico, multi-instrumentista dos bons (o Morphine é prova disso) e cartunista. Criou o “twinemen” – um quadrinho com técnicas visuais e foi membro do “Treat Her Right” – banda de blues anterior ao sucesso. Mark nasceu com a arte em seu destino. No documentário fica evidente o trato de seus pais com o menino. Mark sempre foi tímido e lacônico, porém gentil e culto. Era de contar histórias e agitar as coisas. A seu modo, claro. Nesse documentário temos o depoimento de baixistas clássicos (Les Claypool e Mike Watt) falando sobre essa “novidade” de um baixo de duas cordas com “slide” que ele tirou da cartola e moldou o som da banda. Foi algo genial. Morphine foi um som tão criativo que quase ninguém soube cataloga-los… Criou-se o termo “low-rock”… Não tinha como rotular um som daqueles: double strings no baixo e um sax no lugar da guitarra. Era alternativo, mas sofisticado ao mesmo tempo. Era diferente. A mãe de Mark lançou um livro extremamente triste e delicado, pois ela perdera três filhos… Não é qualquer pessoa que segura um troço assim. Isso já marcara Mark de alguma forma. Ele perdeu os dois irmãos de maneira torpe e caiu numa depressão enorme. Já tinha passado por um esfaqueamento dentro de um taxi também… Decidiu se curar através da música. Daí o nome do segundo álbum: “Cure For Pain”. Mas, acabou sucumbindo devido a um ataque de coração em cima do palco. Na frente de todos italianos que lá estavam… Acabava o Morphine. Acabava a trajetória de Mark Sandman aos 47 anos. O terceiro filho de Giulle (sua mãe) falecera. Em 1999. Antes do fim do século e milênio. Desgraça e glória, prisão e liberdade dentro de uma biografia muito boa. Mark morou em diversos lugares. Inclusive no Brasil – Santa Teresa no Rio de Janeiro. Falava bem alguns idiomas, entre eles o português. Foi um cara sensacional. Um artista. Bem como a família previra! É isso… Faz muita falta um cara assim…

Dos CINCO álbuns deixados pela banda eu recomendo TRÊS para iniciantes e amantes dos bons sons: “Good” (1992), “Cure For Pain” (1993) e “The Night” (2000) – esse póstumo. Confiem em mim. Seus ouvidos agradecerão e terão uma dívida eterna consigo. 

DICA DE AUDIÇÃO

SHAUN RYDER – “Visits from Future Technology” (2021)

Por Leozito Rocha

Plainsong: https://plainsong.io/artist/208/leo-rocha-leozito


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Leozito Rocha, carioca, 45 anos, Flamenguista, carioca, editor e produtor do "O Som do Leozito" na Internova Radio, blogueiro, escritor e redator. Fundador da Noramusique e colaborador DJ.

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