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Leozito Rocha

Sujeira sônica Brasileira

Seguindo meio a linha do post anterior peguei-me ainda ligado nos idos anos 90. A banda que foi o fio condutor desse pensamento foi o Second Come (conforme escrevi anteriormente). Desembrulhando tudo isso, e num papo agradável sobre o Espaço Retrô (clássica casa de São Paulo) com o jornalista Humberto Finatti chegamos na banda “Sonic Disruptor”. Do começo em Guarulhos ao primeiro registro: “Solar Baby” (1994). Da participação em uma compilação chamada “No Major Babes Vol. 2” (1994) – organizada pelo jornalista Marcel Plasse – com a faixa “Swerve Me” ao disco único: “Poppers” (1996) produzido pelo saudoso Kid Vinil. E, claro, no mais triste: o falecimento de Marcelo Rodrigues, o Joy (alcunha do vocalista), em abril de 1998. Estabelecendo o final abrupto da banda. 

Porém, tirei a tarde mais nublada para degustar esse único disco. E, que delícia foi. A sonoridade seiscentista com elementos shoegazer, indie e psicodélico perpassam pelas faixas de forma muito gostosa e agridoce. Explico o “agridoce”. Eu cunhei o termo para descrever algo lírico, triste e belo. Ou melhor: melancolia com alegria. Algo presente nas bandas The Byrds, Kinks ou Velvet Underground. Entende? Pois é… E, obviamente a sujeira do Sonic Youth, Jesus & Mary Chain e tal também faz-se presente no som. De todo modo, eles adicionam suas contribuições exatamente recolocando-os na década presente. As guitarras dos anos 90. O fervor daquele tempo onde surgiram muitas outras bandas apelidadas de “guitar bands”. 

 

O mote de tudo sãos o 25 (vinte e cinco) anos do seu excelente trabalho. “Poppers” foi lançado no primeiro trimestre de 1996 com Joy, Ivan Vicente, Josmar Madureira (depois formaria o Monokini), Fabio Casaca e Marcelo. O disco remonta o noise rock, o psicodelismo sixtie, a distorção das guitarras e teclados climáticos. Em algumas apresentações a banda chega a esbarrar no estilo mod e até flertar com os “franjinhas” de Manchester (Inspiral Carpets, Charlatans UK) ou shoegazers como o My Blood Valentine. 

O “Poppers” passou na mão de Kid Vinil e depois da própria banda. Produzido e mixado em diversas mãos até sair pra rua. A gravadora Open House ajudou a divulgar, mas o próprio SD, descontente com os resultados pegaram pra si a distribuição. Chegaram a mandar também para a Europa. Infelizmente, não conseguiram vender como esperavam. Mas, fica a recomendação do ótimo trabalho do SD a todos os leitores. Ouçam! Vale muito a pena!

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DICAS DO LEOZITO

Deixar-lhes-ei algumas boas (penso eu…rs) para os leitores antenados e ávidos de cultura. Livros, sites, espaços e afins. Boas com ou sem pandemia.

– O músico Edgard Scandurra tem um programa bem variado e latente na Antena Zero. Chama-se “Scandurrices”. Vai ao ar nas quartas-feiras a meia noite. De qualquer modo, quem não puder acompanhar no dia ele disponibiliza no Mixcloud também. É bem legal!!!

– Falando no Plainsong eu também tenho um projeto em forma de programa chamado “Arqueologia”. A linha é escavar de forma intestina sonoridades diferentes e estranhas (por falta de palavra melhor). Os dois primeiros programas vão estar disponíveis por aqui. Só entrar no Plainsong.io e procurar por Leozito Rocha.

EPISÓDIOS: https://plainsong.io/album/228/leo-rocha-leozito/arqueologia

– Dois livros para amantes de música. Da minha coleção direto pra vocês. Um chama-se “Escuta Só” de Alex Ross. Uma aula introdutória do clássico ao pop. Incrível! O segundo chama-se “Todo Aquele Jazz” de Geoff Dyer. Talvez um dos cinco melhores livros sobre o gênero. Quem quiser não irá arrepender-se. Garanto!

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PAPO COM  LOIS LANCASTER

6 PERGUNTAS PARA LOIS

LE: Qual é a sua formação acadêmica?

LO: Eu sou mestre em Literatura comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Fui orientado pelo João Camillo Penna – excelente professor, muito querido. Ele e mais alguns professores da faculdade ótimos como Ronaldo Lima Lins, a Ana Alencar e vários outros Luiz Edmundo também, Cinda… esses profissionais me incutiram um amor pela leitura e pela análise da literatura, e mostraram quanto há de precioso no ato de você escrever, de você ler, de você trabalhar com o imaginário que surge a partir da linguagem.

LE: Muita gente ainda o associa ao Zumbi do Mato mas esquece das outras bandas e projetos como “Elefants Terríveis”, “Grupo Século”, etc… Esqueci algum? Conte-nos mais sobre essas bandas.

LO: Bom, o Elefants Terríveis era um Power Trio que eu tinha com o Henrique Ludgero e o Rômulo Mattos, guitarrista. O Henrique era o baterista. Ambos dominavam perfeitamente seus instrumentos – posso dizer, inclusive, muito melhor do que eu dominava o meu. Nós três fazíamos músicas baseadas em… geralmente eu levava os temas e o pessoal trabalhava em cima.

Foi bom porque eu tive possibilidade de experimentar vários temas diferentes nas letras e também desenvolver esse lado de instrumentista/vocalista simultâneo, conquistar independência e expressão no baixo e na voz. Justamente por esses dias eu estou trabalhando com a soprano Laila Wazen. Ela se interessou por uma releitura de algumas músicas dos Elefants que a gente conseguiu gravar. Provavelmente será em Bohlen-Pierce.

Tem muita coisa gravada no meu SoundCloud – uma espécie de diário das minhas composições. Quando eu não consigo finalizar todas ao mesmo tempo para fazer um álbum, eu vou colocando lá. Algumas eu guardo para esse lançamento mais momentoso de um álbum, se elas têm mais sentido quando ficam juntas. Mas com esse link vocês podem conhecer, eu sempre tô procurando atualizar. soundcloud.com/lois-lancaster 

Lá tem várias gravações do Elefants Terríveis, incluindo umas músicas que a gente não chegou a tocar ao vivo. Ensaiamos para lançar no álbum ‘Imita a nossa voz’ que acabou não acontecendo.

Essas práticas de ensaio e gravação eram interessantes para registrar um momento da execução das músicas. Mas, durante esse processo, não só no Elefants mas nas outras bandas, o que faltava eram chances de apresentação ao vivo. Havia muito poucos espaços lá na Tijuca, que era onde morávamos, e os outros lugares já tinham quadros de bandas fixas nos quais era difícil entrar.

Outra banda que vale a pena citar foi o Turangalîla, anterior a Zumbi do Mato, meu primeiro esforço de juntar pessoas para trocar alguma coisa. Era uma banda de rock progressivo. Chegou a ser chamada de Gentle Giant (‘Jantou, já, a gente’?) da TIJUCA.

Ensaiamos, ensaiamos para caramba, uns dois anos e umas oito músicas, para fazer uma apresentação no em 1992 na Psicose Dance Pub Disco Club. Composições fascinantes de todos os integrantes. Foi algo bem audacioso, fazer músicas que gostávamos de ouvir, tentar tornar esse mundo musical, do qual queríamos fazer parte, um pouco maior, sem ter que depender apenas do que nos forneciam. Fazermos nós próprios nosso entretenimento.

Isso foi no início dos anos 90. A partir daí, paralelo o zumbi teve os elefants terríveis e mais alguns grupos, como a gangue vocal Putz Kara, que foi onde conheci Cláudia O’Connor, minha companheira, e também Rosanna Aliprandi, que depois cantou no Grupo Século e até hoje colabora com minhas gravações. E muitas outras pessoas maravilhosas, das quais sou amigo até hoje. O Putz Kara foi também uma experiência gratificante por me permitir escrever para várias vozes em vários naipes. isso certamente influenciou meu trabalho posterior. E cantar ao vivo linhas diferentes, usar a espacialidade do palco sem nenhum instrumento pra te prender, é uma experiência incrível. E não posso esquecer a experiência do Grupo Século, já nos anos 00. O Grupo Século foram amigos que eu juntei para aproveitar a possibilidade de tocar meu disco solo “20 bus K” ao vivo, dentro do projeto Tributo ao Inédito, do qual o Z1bi já tinha participado.

No meu SoundCloud há um registro de gravação do Século em estúdio, chamado Tesouro da Juventude. A gente começou tocando esse repertório do disco solo e depois prosseguimos com novas composições- que também muitas vezes eram complexas e demoravam muito para ensaiar, mas tínhamos muita satisfação em propor formas diferentes de arranjo com o grupo de instrumentos variados de que dispúnhamos.

A primeira vocalista foi a Ana Maura Araújo e depois tivemos a Rosanna Aliprandi. Nas guitarras era o Ivan Lima, na bateria Sandro Rodrigues, André Ramos no Sax, e Rodrigo Duarte na flauta. Durante um tempo Augusto Malbouisson colocou efeitos nos canais dos instrumentos, que passavam por uma mesa própria antes de chegar no PA do estúdio. Isso tudo dava muita possibilidade timbrística ao conjunto, que eu procurava aproveitar nos arranjos das composições.

Participei também de outros projetos de menor duração, mas igualmente interessantes, como o Cubo Preto banda perfumágica da artistas Joana e Júlia Csekö, que inclusive assina a pintura na capa do meu álbum Café sobre Tela.

LE: Conseguiria explicar, de forma simples, o microtonalismo e a dodecafonia para leigos em música?

LO: Dodecafonia é mais simples de explicar porque algo que já tá mais ou menos consolidado na tradição musical do ocidente. Você tem as mesmas 12 notas com as quais estrutura todas as composições, todas baseadas numa mesma afinação. O objetivo é evitar qualquer centro tonal, ou seja, qualquer direcionamento harmônico perceptível dentro da harmonia tradicional e assim a música ficar atonal. O procedimento é organizar séries dessas 12 notas en ordens pré-estabelecidas, de modo que nenhuma se repita até você começar o ciclo novamente.

O dodecafonismo é uma possibilidade de se antagonizar determinada maneira de pensar música como era pensada no ocidente em termos de tonalidade. Arrigo Barnabé foi uma grande influência minha no uso da dodecafonia e do serialismo na música popular.

Já o microtonalismo (que muitas pessoas preferem chamar de Xenarmonismo) é diferente. Ele não procura eliminar o campo harmônico. Pelo contrário, ele oferece a possibilidade de novos campos harmônicos para interagir com a nossa percepção. Eu acho maravilhoso. Para ouvir e para compor música xenarmônica, música microtonal, você apenas precisa abrir mão de certa em concepção de afinação. E o ganho é muito maior.

Você pode considerar certas músicas microtonais muito dissonantes, mas se você der uma chance à música, ouvir mais cinco, seis vezes, vai perceber novas relações harmônicas ali, baseadas em outros campos que muitas vezes não foram mapeados pelas diversas culturas tradicionais do ocidente ou Oriente. Um exemplo é a escala que eu mais uso e inclusive tenho instrumentos (guitarra e baixo) afinados nessa escala. É a Bohlen-Pierce, que só possui harmônicos ímpares (não tem oitava, por exemplo, que é a relação 2:1) e por isso conta com acordes consoantes, mas que não se submetem da mesma forma à lógica de maiores ou menores.

LE: Te incomoda a correlação entre o seu trabalho e de Arrigo Barnabé?

LO: Não, não me incomoda em absoluto. Eu gosto muito do trabalho dele. Clara Crocodilo é fundamental na minha formação musical, e eu considero até hoje um dos discos mais importantes da nossa música popular, muitas vezes subestimado. E além disso tem Tubarões Voadores, Cidade Oculta – por onde eu comecei a conhecer o trabalho dele e do Patife Band – e aí também fui procurar conhecer Vanguarda Paulista a partir dele, Itamar Assumpção, Grupo Rumo, e me maravilhei com as possibilidades que eles estavam explorando.

De certa forma, meu trabalho é uma tentativa de ampliar esse repertório de música boa, incorporando meu próprio estilo e as inovações a que hoje em dia estamos expostos, como a possibilidade de reafinar um instrumento virtual para qualquer escala, e de trocar informações sobre experiências nesse campo com gente do mundo todo. Levar até aí a possibilidade de canção, do tipo de canção nossa que aprendi a admirar.  Então não existe antagonismo da minha parte, pelo contrário. Acho que é uma continuidade.

LE: O que Lois tem ouvido de bom?

LO: Nessa loucura de pandemia não tenho tido possibilidade de escutar muita coisa. O tempo que eu tenho de sobra eu uso geralmente para fazer música. Mas tenho pesquisado nos streamings Charlie Parker e John Coltrane, por exemplo. Certos vídeos da internet me explicaram sobre o que era aquele tipo de música, o que eles estavam tentando fazer harmonicamente, e eu passei a dar mais valor e a entender o modo de admirar o que de outra forma me parecia apenas uma explosão de notas.

Voltei também a escutar os últimos quartetos do Beethoven, que eu geralmente ouvia no trem a caminho para o trabalho, e fiquei sem esse momento ocioso durante a pandemia. Agora em casa qualquer momento é momento de fazer coisas… então tô procurando voltar a ouvir, principalmente o quarteto 131, que é o meu favorito. Escuto também os trabalhos xenarmônicos da comunidade no Facebook. Tem gente incrível como Mike Battaglia, Stephen Weigel, John Mulvale, Elaine Walker, Sevish. E gente amiga, Lívia Nestrovski, Marcelo Callado, Negro Leo, Ava Rocha.

LE: Dicas da pandemia de Lois. Podem ser livros, discos bem como afazeres e meditação…

LO: Uma coisa que eu recomendo é buscar conhecimento na web, principalmente aulas no YouTube. Eu tenho tentado aprender mais sobre mecânica quântica, sobre quais são esses menores componentes da matéria.

Há entrevistas que eles põem no ar, com vários cineastas e escritores, e vídeos que apresentam especialistas em algum assunto para analisar determinados filmes e ver o grau de verossimilhança. Especialistas como tratadores de animais, donos de cassino, ex-agentes secretos, efeitos especiais, professores de lutas medievais etc. Sempre dá pra aprender alguma coisa nova.

Também tenho cultivado plantas em minha casa. É um tipo não invasivo de companhia e auxilia você a perceber outros tempos que a vida pode assumir, diferentes do humano.

É isso, pe-pe-pessoal! Clic.

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Plainsong se dedica a trazer a você a melhor música no melhor do rock e eletrônico nos estilos post-punk, synthpop, dark wave, indie, shoegaze, eletrônica, ’80s revival e muito mais.
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Written By

Leozito Rocha, carioca, 45 anos, Flamenguista, carioca, editor e produtor do "O Som do Leozito" na Internova Radio, blogueiro, escritor e redator. Fundador da Noramusique e colaborador DJ.

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